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O racismo, permeia até mesmo o cristianismo, e se não tem a fonte original no mesmo, encontra neste apoio para a manutenção de alguns conceitos discriminatórios.
Igrejas pentecostais já chegaram a propagar ideias racistas, o que hoje já foi praticamente deixado de lado pelas igrejas no Brasil. Trago para análise o exemplo de que, pregando muitas vezes de maneira involuntária, com uma falsa base teológica quanto a questão específica ora tratada, igrejas pentecostais, até o início do século XX ajudaram a legitimar atitudes racistas.
Quero convidar cristãos a analisarem este fato, em uma reflexão que não visa a atacar igrejas pentecostais ou quaisquer igrejas que sejam, mas sim,

discutir erros de interpretação bíblica, que podem funcionar como fator de manutenção de preconceitos e discriminações dentro de nossa sociedade. Fazendo tal análise, encontramos novas maneiras de combater preconceitos, pacificando e harmonizando a sociedade, o que é compatível com os objetivos da igreja, pois “bem aventurados os que promovem a paz”.
Tendo em vista o sentimento que a frase de Jesus promove, podemos considerar que tal análise e a revisão de conceitos pode contribuir até mesmo com o fortalecimento eclesiástico, observado que este processo leva ao enriquecimento cultural e ao aprimoramento das práticas religiosas e das relações sociais. A história neste caso, serve para que meditemos sobre como erros de interpretação teológica podem nos levar a cometer injustiças, quando não são analisadas as afirmações teológicas friamente, fora da emoção, fora da parcialidade e sob a luz das mais diversas ciências acadêmicas, que auxiliam a compreensão da verdade. Sim, porque a escritura não existe isolada da realidade, que é descrita pelas várias áreas do conhecimento humano.
A doutrina teológica racista é originária, dentre outras fontes, de protestantes norte-americanos no século XIX e chegou ao Brasil através de missionários pregadores. Esta “base teológica” do racismo, que teve seu ápice de expressão no final do século XIX e início do século XX, e que já foi deixada de lado pelas religiões pentecostais no Brasil, ensinava que a palavra hebraica “Cam”, que corresponde ao nome de um dos filhos de Noé, significaria, necessariamente “queimado” ou “preto”, fazendo-se assim uma ligação forçada que apresentaria o filho de Noé como o pai da raça negra. Daí a interpretação de que a cor negra da pele seria um diferencial identificador dos descendentes de Cam. Segundo esta antiga doutrina religiosa, por uma maldição lançada por Noé sobre Canaã, filho de Cam, este deveria se tornar o mais baixo entre os servos:
“E começou Noé a ser lavrador da terra, e plantou uma vinha. E bebeu do vinho, e embebedou-se. E descobriu-se no meio de sua tenda. E viu Cam, o pai de Canaã, a nudez do seu pai, e fê-lo saber a ambos os seus irmãos fora. Então tomaram Sem e Jafé uma capa, e puseram-na sobre ambos os seus ombros, e indo virados para trás, cobriram a nudez do seu pai, e os seus rostos eram virados, de maneira que não viram a nudez do seu pai. E despertou Noé do seu vinho, e soube o que seu filho menor lhe fizera. E disse. Maldito seja Canaã (Canaã era filho de Cam). Servo dos servos seja aos seus irmãos (no caso, primos). E disse. Bendito seja o Senhor Deus de Sem. E seja-lhe Canaã por servo. Alargue Deus a Jafé, e habite nas tendas de Sem. E seja-lhe Canaã por servo”. (Gênesis 9.20-27).
Daí vem então uma explicação simplista: por causa desta maldição, os negros, segundo os pregadores do racismo teológico, como descendentes de Cam, se adaptam bem a ser excelentes serviçais. Segundo esta visão, os filhos de Sem e Jafé (não negros) teriam então um “direito teológico” herdado de se aproveitarem do trabalho dos filhos de Cam, contribuindo, assim, para a redenção espiritual destes que são marcados por dois “pecados originais”: o primeiro, o pecado de todo o ser humano de ser filho de Adão, e o segundo, de serem filhos de Cam. Entretanto, um simples exame atento da passagem bíblica serve para o total desmonte desta teoria: Note que Noé amaldiçoa o neto Canaã, como descendente de Cam e não o próprio filho. Ora! Como poderia haver ligação lógica entre a maldição proferida contra o neto de Noé Canaã e o nome Cam de seu pai, sendo que Cam nasceu e foi nominado antes? Como poderia estar ligado a tradução do nome Cam como sendo “Preto” e a cor da pele do neto de Noé, seu filho?
Noé, obviamente deu nome ao seu filho antes de saber que ocorreria algo que o levaria a amaldiçoar o próprio neto. Ou alguém ainda teria a capacidade de argumentar absurdamente que “tudo estava escrito”, como se isto fosse algum plano de Deus, previsto para acontecer desta forma, para tentar validar a teoria que carece de lógica? Daí, percebe-se que existem afirmações teológicas, algumas fartamente divulgadas pelas mais variadas igrejas, podem conter graves erros de interpretação em sua origem.
Teorias assim apresentadas são absurdas, pois são provindas de raciocínios sem base lógica e factual, contendo erros primários gritantes. Estas, quando ocorrem, contribuem na verdade para a depreciação da credibilidade do cristianismo. Neste caso, ainda temos que a palavra Cam, que aparece com variantes em muitos idiomas antigos, pode também ser perfeitamente traduzida por “quente” e não necessariamente como queimado; negro. Ainda que assim o fosse necessariamente traduzida, não validaria a teologia da maldição hereditária, ligada ao povo negro, pois não existe menção a cor da pele ou à raça no texto. Além disto: enquanto a Bíblia hebraica contrapõe os canaanitas, etnicamente, aos antigos israelitas, estudiosos modernos consideram o reino de Israel e Judá um subgrupo da cultura canaanita, tanto com base na arqueologia quanto na linguística. Sendo assim, os canaanitas não se constituem em um povo negro.
No caso de se considerar a história e a arqueologia, Israel também seria descendente de Cam. E temos mais: através das ciências biológicas, cujas técnicas de hoje permitem rastrear o desenvolvimento das populações com uso de exames de DNA de populações humanas atuais, também não encontramos indícios que poderiam validar a tal história ligando a maldição de Noé a cor escura da pele dos descendentes de Cam. Sabe-se, através destas pesquisas, que grupos negros não tem um ascendente em uma única pessoa, que seria Canaã, pois os grupos humanos se desenvolveram com certa independência e não a partir de fonte genética única; sabe-se ainda que as épocas para tais acontecimentos não se apresentam compatíveis com a época em que apareceram as mais antigas civilizações e registros das histórias bíblicas, sendo portanto, a origem das populações negras, muito anteriores ao surgimento da escrita ou ao primeiro registro da história de Noé.
Discursos discriminatórios dentro de religiões, estiveram presentes em muitos momentos da história. No período colonial das Américas, este tipo de pensamento preconceituoso também serviu para legitimar a escravidão de negros frente a religião. Desta forma, então, restaria aos negros suportar sua condição desfavorável, enquanto aguardavam sua salvação, sendo este discurso religioso uma forma de promover a aceitação da escravidão e, em um momento posterior da história, a pretensa inferioridade do negros livres nas mais diferentes instâncias da sociedade ocidental. Esse racismo teológico não foi exclusividade das igrejas históricas.
Há ainda hoje, vários teólogos pentecostais que ainda sustentam traços desta antiga ideia, por exemplo, divulgando a ideia forçosa de que o sinal posto sobre Caim, filho de Adão, quando este matou seu irmão Abel, representava uma maldição caracterizada pela cor negra. Neste ponto, além do racismo, fica evidente o gritante erro de interpretação forçada, visto que não há nada no texto bíblico que sirva como referência à cor da pele ou à raça de Caim, filho de Adão, da mesma forma que não há com relação a Canaã.
Incrível é observar como este conceito teológico errôneo presente nas igrejas pentecostais contribuiu durante muito tempo como fator de apoio à manutenção do racismo. Uma postura histórica anti-africana. Assim, constatamos que, dentro do meio religioso, ao contrário do que acontece no meio científico, conceitos concebidos sem análise são propagados sem o menor questionamento entre os fiéis, que apenas o seguem, em um processo de aprendizado mecânico, causando um imenso dano e sofrimento a pessoas que nada devem, pois a religião tem o poder de influir grandemente no comportamento da sociedade como um todo. Uma enorme irresponsabilidade!
Outro discurso que aparece como discriminatório quanto aos negros dentro da religião cristã em geral é o da batalha espiritual. Este discurso também opera da mesma forma que a doutrina da maldição hereditária de Canaã. Estas doutrinas, em função de sua forma de apresentação reforçam o estigma da cor negra, como sinônimo de algo negativo. Nesse aspecto, o racismo sai da esfera da teologia e avança para a vida da sociedade como um todo. Na doutrina das maldições hereditárias, como vimos, o povo negro era considerado uma raça originalmente maldita, pois herdava uma cultura proveniente da maldição de Canaã e por isto tinha uma cultura considerada inferior a cultura dos brancos. Para que o negro fosse livre de sua maldição seria necessário então que ele se desligasse completamente de seu passado histórico-cultural, quando os mesmos se desligavam de suas antigas religiões africanas. Assim com a conversão ao cristianismo, apagava-se tudo o que pudesse ligá-lo ao seu passado africano, reforçando a idéia de inferioridade desta cultura e da sua raça.
Na batalha espiritual cristã, a discriminação evidencia-se também por meio da literatura não religiosa, mas que carrega conceitos de religião, onde o mal é personificado na cor preta. Um exemplo disto é encontrado no livro “Este Mundo Tenebroso”, de Frank E. Peretti, de 1991, portanto em uma obra recente de ficção, onde o exército de Deus é retratado por anjos brancos e loiros, enquanto que o exército do diabo, é retratado por anjos negros. De maneira inconsciente, então, o racismo velado presente é absorvido e, posteriormente emerge nos discursos que permeiam as relações sociais.
As igrejas históricas e pentecostais também já manifestaram racismo por meio da sua produção cultural, como hinos, literatura e em seus métodos pedagógicos. Hoje, após o constante debate e evolução lenta de posições, através da constante divulgação de informações atualizadas, o preconceito racial velado do meio pentecostal foi eliminado em grande parte, como esperava-se de pessoas com inteligência e que se dispuseram a trabalhar em favor do bem comum. Assim, a igreja, com algumas exceções, parece ter vencido ou estar vencendo o desafio de abandonar de vez o discurso racista. Mas, uma vez vencido este desafio, da mesma forma como acontecia no século XIX, a atualidade também traz novos desafios à igreja e ao cristianismo como um todo, como por exemplo: entender a necessidade da separação entre estado e religião; o desafio de entender a necessidade e a legitimidade de se integrar totalmente à sociedade pessoas LGBT, pondo fim a todas as formas de discriminação; o desafio de também entender a importância da educação e da cultura para o respeito à diversidade, como forma de promover a harmonia baseada na compreensão profunda e não simplesmente na “tolerância” em relação aos diferentes grupos da sociedade.
Estas mudanças de conceitos devem acontecer para que sejam abertos caminhos para a construção de uma sociedade humana melhor e passam, certamente, pela necessária melhor compreensão das escrituras religiosas, dentro de seu contexto histórico e cultural, com o abandono das simplist

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