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A Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, realizada este ano, de 13 a 20 de maio, sugere uma compreensão humanizadora do cristianismo. Seu lema, “A mão de Deus nos une e liberta” (Ex 15,1- 21), inspira-se em um dos paradigmas fundantes da cultura judaico-cristã, que é a libertação dos escravos hebreus no Egito, ocorrida há cerca de 3500 anos. Outrora, por “intervenção de Deus”, Moisés liderou a organização e a luta desse povo oprimido.

A identidade libertadora de Deus se manifestou, desde então, no estilo solidário de vida, na conquista da terra prometida, na atuação dos profetas e na missão de Cristo, o Verbo encarnado (cf. Lc 4,16- 21), que se fez libertador pleno e definitivo. Para cumprir sua missão libertadora, Jesus assumiu a “condição de escravo” (cf. Fl 2,5-11), adentrando a realidade de morte gerada sobretudo pelo trabalho opressor, para resgatar os oprimidos e dar-lhes vida. Ele próprio disse: “O ladrão vem só para roubar, matar e destruir. Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10).

Em Jesus, Deus não assumiu natureza humana abstrata, mas realidade concreta de trabalhador. Jesus foi um trabalhador manual (Tektōn, em grego; traduzido por carpinteiro, cf. Mc 6,3) identificado, portanto, com trabalhadores comuns. Seu “trabalho” evoluiu, por meio de sua “vida pública”, para a “obra” que o Pai lhe confiou. Ele assumiu-a até o fim (cf. Jo 17,4).

Sua doação total para a salvação da humanidade, tornou-se missão contínua, confiada aos seus discípulos, a quem comunicou seu Espírito livre e libertador. Reunidos amorosamente em oração, 50 dias após a páscoa, o Espírito Santo prometido por Jesus se manifestou em seus corações, dando início definitivo à Igreja, na forma de Povo de Deus em missão no mundo.

Desde então, o cristianismo estimulou movimentos libertários e continua inspirando as libertações sempre necessárias, afinal os seres humanos tendem a reproduzir modelos escravizantes de vida, tais como ocorreram no Brasil colonial e imperial, e continuam ocorrendo, hoje, sob a forma neoliberal, submetendo-nos ao poder do grande capital, especialmente financeiro. “O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos”.

Esse pensamento de Simone de Beauvoir, filósofa existencialista francesa, do século passado, aponta para a necessária consciência crítica dos próprios cristãos a respeito dos mecanismos de dominação existentes nas relações interpessoais e sociais.

Nesta Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, somos, portanto, convidados a projetar nossa vivência de modo amplamente ecumênico, fruto de diálogos que propiciem ações comuns especialmente pela paz, pelo fim de condições geradoras de pobreza e pela preservação integral da vida, contrapondo-nos ao rolo compressor de medidas econômicas neoliberais.

Recusemos, pois, pensar com a cabeça de quem nos divide para nos dominar, joguemos fora as armas ideológicas com as quais nos destruímos mutuamente, fixemos nossos olhares em nosso potencial de unidade, cultivemos nossa fé em Deus que nos une e liberta, avançando sempre mais em direção à amorização que nos salva. 

Jales, 16 de maio de 2018.

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